Um padre no inferno comunista - Front catolico

Um padre no inferno comunista






Livro traz o impressionante testemunho de um padre católico que sobreviveu aos campos de trabalho forçado na União Soviética



Dr. José Ruivo, meu amigo de infância de 89 anos, presenteou-me com o livro “Pelos Vales Escuros”, escrito pelo padre jesuíta Walter J. Ciszek (1905-1984). Na obra, o religioso americano narra os 19 anos que passou em prisões e campos de trabalho forçado na União Soviética, absurdamente acusado pelos comunistas de ser um “espião do Vaticano”. É um relato assustador e comovente, na linha de Soljenítsin e Viktor Frankl.



“Pelos Vales Escuros” demonstra que a fé cristã, quando autêntica, é capaz de sobreviver às piores perseguições, sofrimentos e até aparelhamentos. Selecionei aqui alguns trechos desse livro impressionante e gostaria de compartilhá-los com meus sete leitores:



“O que aprendi nos campos de trabalho foi a ter um respeito e um amor tremendos pelo meu velho corpo. Era ele que suportava a carga de todo sofrimento, embora a alma pudesse experimentar a angústia. E é o corpo que tem de sustentar você, mesmo que você tenha toda a força de vontade e determinação do mundo. Era o corpo quem sentia a ferroada do vento, os dentes do frio, a cãibra dos músculos doloridos, a pele rachada e sangrando como se tivesse sido açoitada, a agonia aguda da fome, a luxação e mortificação dos tendões sobrecarregados. (...) Naqueles momentos, quando cada dia terminava em exaustão e o corpo implorava por cada minuto extra de descanso, cada pequena pausa no trabalho e farelo extra de comida, que realmente pude apreciar o presente maravilhoso da vida que Deus dera aos homens nos recursos do corpo humano.”



“O mais comum era celebrarmos a Missa diária (clandestina) em algum ponto do local de trabalho durante a pausa do meio-dia. Apesar dessa dificuldade extra, todos observavam o jejum Eucarístico a partir da noite anterior, rejeitando o café da manhã e trabalhando toda a manhã de estômago vazio. Mas ninguém reclamava. Os prisioneiros iam lentamente em pequenos grupos até o local designado, e ali o sacerdote celebrava a Missa em roupas de trabalho, sujo, roto, encolhido contra o frio. Celebrávamos a Missa em depósitos varridos por correntes de ar gelado, apinhados na lama, ou atrás de um alicerce escavado num canteiro em construção. Não havia altares, velas, sinos, flores, música, linho alvo, ou o calor que até a paróquia mais simples poderia oferecer. Mas, naquelas condições primitivas, a Missa nos levava mais perto de Deus do que era possível conceber.”



“O que era eu se comparado com os milhões de ateus na União Soviética? O que era eu se comparado com o poder e a força do governo soviético? E o que cada um de nós era diante do sistema que nos cercava, com todos os seus órgãos de propaganda e o poder de perseguir? Mas,  pela providência de Deus, ali estávamos nós. Aquele era o lugar que Ele escolhera para nós. Desde a época dos Apóstolos — doze homens simples, sozinhos e temerosos, que receberam o grande mandato de ir pelo mundo inteiro pregando as boas novas do reino —, nunca houve outra maneira de expandir o Reino que não fossem as ações e a vida de cada cristão que se esforça todos os dias para cumprir a vontade de Deus.”

Fale com o colunista: avenidaparana@folhadelondrina.com.br

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