Porque os católicos fazem jejum e abstinência de carne? - Front catolico

Porque os católicos fazem jejum e abstinência de carne?







É comum hoje ouvirmos vozes a desvalorizar a necessidade do jejum e da abstinência, normalmente justificando-o com frases como“basta o jejum de palavras negativas/ da maldade”, “basta ajudar o próximo”, entre outras variantes.
Qual o erro? O erro está em assumir que as diferentes formas de penitência se excluem, quando o que acontece é precisamente o contrário… elas completam-se entre si: “Os cristãos não se limitem a uma só forma de penitência, mas antes as pratiquem todas, pois o jejum, a oração e a esmola completam-se mutuamente, em ordem à caridade” [1]. Ou seja não é por fazer jejum que não é preciso praticar a caridade, e não é por fazer caridade que não é preciso fazer jejum, pelo contrário, praticar todas as formas de penitência, o jejum, a oração e a esmola, é uma forma muito mais rica de viver a quaresma e a vida cristã do que quando é excluída uma ou várias delas.


É verdade que o apelo de Jesus à conversão e à penitência não visa primariamente as obras exteriores, os jejuns e as mortificações, mas a conversão do coração, a penitência interior [2], por isso não devemos descurar a conversão do coração, não podemos por exemplo jejuar só para mostrar que jejuamos, como advertiu Jesus. No entanto também é verdade que quando o jejum e abstinência têm por objectivo e são acompanhados de mudança de vida, de conversão, de arrependimento dos pecados e volta para Deus têm um enorme valor.
Dito isto de seguida apresentam-se várias explicação sobre o jejum e a abstinência.

ORIGEM?

Praticado desde toda a Antiguidade pelo povo eleito, como sinal de arrependimento, praticado por Nosso Senhor Jesus Cristo e por todos os santos, recomendado pela Santa Igreja como instrumento de santificação da alma, de controle do corpo e equilíbrio emocional, o jejum obrigatório foi consolidado ao longo dos séculos.


Bíblia recomenda muito o jejum, tanto o Antigo como o Novo Testamento; A Quaresma evoca os 40 dias de jejum vividos por Jesus no deserto antes de empreender a sua missão pública. Lê-se no Evangelho segundo Mateus: «Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Depois de ter jejuado quarenta dias e quarenta noites, no fim teve fome».
  • “Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, te recompensará.” (Mt 6, 17-18)
  • “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 20).


  • “Boa coisa é a oração acompanhada dejejum, e a esmola é preferível aos tesouros de ouro escondidos” (Tb 12, 8).
  • “Naquele tempo, os discípulos de João aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não? Disse-lhes Jesus: “Por acaso, os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado do meio deles. Então, sim, eles jejuarão” (Mt 9, 14-15).
O jejum e abstinência são práticas penitenciais. A penitência é a virtude cristã que inspira o arrependimento pelos pecados. As três formas de penitência: o jejum, a oração e a esmola, exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros. Em sentido mais amplo, a penitência é “uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo o nosso coração” [2].


Trata-se de um desejo de mudar de vida, “com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda de sua graça”. Esta conversão interior vem acompanhada daquilo que os Padres da Igreja – grandes homens dos inícios da Igreja, aproximadamente do século II ao VII – chamavam de “compunctio cordis”, ou seja “arrependimento do coração”.
Ao escolhermos de livre vontade fazer o pequeno sacrifício de nos privarmos de algo que gostamos, procuramos lembrar e nos unir à paixão de Cristo durante todo o ano, participar de modo mais concreto do Mistério Pascal, do sacrifício pascal de Cristo, que realiza a redenção definitiva dos homens. Com os olhos na cruz de Cristo, manifestamos arrependimento pelos nossos pecados e procuramos a proximidade com o Senhor.
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A paixão de Cristo é aspecto central na prática do jejum e abstinência.
A escolha da sexta-feira como um dia penitencial está naturalmente ligada à recordação da sexta-feira da Paixão e Morte do Senhor. Historicamente é algo que afunda suas raízes na época apostólica. A Didaqué,uma espécie de catecismo dos primeiros cristãos, dá conta de que o jejum era feito na quarta e na sexta-feira.


Encontramos a prática do jejum muito presente na primeira comunidade cristã (cf. Act 13, 3; 14, 22; 27, 21; 2 Cor 6, 5). Os Santos Padres também incentivaram sobremaneira este hábito que acabou se consolidando até aos dias e forma atual. 

EM QUE CONSISTE?

jejum é a forma de penitência que consiste na privação total ou parcial de alimentos durante um determinado período de tempo. Na disciplina tradicional da Igreja, a concretização do jejum consiste em limitar a alimentação diária a um máximo de uma refeição completa e duas menores, as quais, juntas, são menos que uma refeição inteira [1]. Estas são as quantidades máximas que deve ingerir, no entanto tendo boas condições de saúde pode optar uma restrição de alimentos maior. Água e remédios são permitidos em qualquer tipo comum de jejum.
Um exemplo de um dia de jejum:
  • Café da manhã mais simples que o habitual: um pedaço de pão, uma fruta, por exemplo.
  • Almoço simples, sem carne (peixe é possível), sem doces e sobremesas mais apetitosas, sem bebidas alcoólicas ou refrigerantes.
  • Ao jantar, um copo de leite ou um prato de sopa, um pedaço de pão, uma fruta.
Já a lei da abstinência proíbe o consumo de carnebem como de alimentos e bebidas que, segundo um julgamento prudente, são considerados como particularmente apreciados e caros. Deve-se portanto optar por uma alimentação simples e pobre.
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Porquê a carne? São Tomás de Aquino diz que, “ao instituir o jejum, a Igreja seguiu as disposições mais comunsDe modo geral, a carne é mais apreciada que o peixe, embora para alguns ocorra o oposto” [3]


Também hoje, embora a carne seja de modo geral mais apreciada, há pessoas que apreciam mais o peixe que a carne. No entanto, isso não significa que se deve deixar de observar a abstinência da carne, é aconselhável que todosobservem a mesma abstinência para que todos os fiéis estejam unidos por uma observância comum da penitência.
No caso das pessoas que gostem mais de peixe, devem escolher um tipo ou prato de peixe que gostem menos, procurando dessa forma ir de encontro ao sentido da penitência.
À privação da carne pode-se juntar a privação de outros alimentos e bebidas, sobretudo mais requintados e dispendiosos ou da especial preferência de cada um. À abstinência de alimentos pode ainda também juntar a privação de alguns vícios (tabaco, jogos, redes sociais, etc), pois também podem ser uma forma de penitência.


QUEM?

O preceito da abstinência obriga os fiéis a partir dos 14 anos completos. Aos que tiverem menos de 14 anos, deverão os pastores de almas e os pais procurar atentamente formá-los no verdadeiro sentido da penitência, sugerindo-lhes outros modos de a exprimirem.
O preceito do jejum obriga os fiéis que tenham feito 18 anos até terem completado os 59.
As presentes determinações sobre o jejum e a abstinência apenas se aplicam em condições normais de saúde.
Estão dispensados da abstinência:
  • Os mendigos que só têm para comer o que recebem de esmola;
  • Os que dependem de alimentação coletiva, quando não podem escolher a sua alimentação;
  • Os doentes que não podem alimentar-se de outra coisa;
  • Os operários que se ocupam de trabalhos muito pesados;
  • Os que viajam, se não tiverem outro alimento.
Estão dispensados do jejum:
  • Os mendigos;
  • Os doentes e convalescentes;
  • As pessoas realmente fracas, que se sentiriam gravemente mal se jejuassem;
  • Os que trabalham em trabalhos pesados;
  • As senhoras que estão grávidas ou amamentando.

QUANDO?

jejum e a abstinência são obrigatórios na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa.
abstinência é obrigatória, no decurso do ano, em todas as sextas-feiras que não coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades. Esta forma de penitência reveste-se, no entanto, de significado especial nas sextas-feiras da Quaresma.
Estes são os dias em que o jejum e abstinência são obrigatórios, no entanto deve ser lembrado que todos os católicos devem ter a mortificação e o jejum presentes em suas vidas ao longo do ano.

QUAIS OS FRUTOS?

  • Educação da vontade.
O jejum exprime a vontade e esforço de converter-se para Deus. Como disse o Papa Bento XVI jejuar “é em primeiro lugar uma «terapia» para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus” [4].
As privações voluntárias têm em vista educar a vontade à submissão da vontade de Deus. Ajudam-nos a organizar exteriormente e interiormente o que está fora de ajuste, por exemplo, o controle dos apetites, ajudam-nos ao domínio em relação a nós mesmos.


  • Proximidade com Deus
Papa Bento XVI: “A prática fiel do jejum contribui ainda para conferir unidade à pessoa, corpo e alma, ajudando-a a evitar o pecado e a crescer na intimidade com o Senhor. (…) Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus. [4] “
  • União à Paixão de Cristo
O costume de se abster de carne na sexta-feira sempre esteve ligado à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Espiritualmente, o jejum e abstinência é uma forma de união a Cristo que vive a sua Paixão.
  • Testemunho e catequese para outros.
Recusar publicamente, por amor a Cristo, algo de que gostamos pode ser uma forma de incutir no próximo o desejo de também conhecer o Amado, por quem se faz sacrifícios. É por isso uma boa ocasião de testemunho e de catequese.


  • Caridade
Papa Bento XVI: “O jejum ajuda-nos a tomar consciência da situação na qual vivem tantos irmãos nossos. Na sua Primeira Carta São João admoesta: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como estará nele o amor de Deus?» (3, 17). Jejuar voluntariamente ajuda-nos a cultivar o estilo do Bom Samaritano, que se inclina e socorre o irmão que sofre (cf. Enc. Deus caritas est, 15). Escolhendo livremente privar-nos de algo para ajudar os outros, mostramos concretamente que o próximo em dificuldade não nos é indiferente.” (…) “Desde o início o estilo da comunidade cristã eram feitas colectas especiais (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27), e os irmãos eram convidados a dar aos pobres quanto, graças ao jejum, tinham poupado (cf. Didascalia Ap., V, 20, 18). Também hoje esta prática deve ser redescoberta e encorajada, sobretudo durante o tempo litúrgico quaresmal.” [4].
  • Sentido de comunidade
Quando todos estamos juntos por uma penitência comum, manifestamos um sinal exterior de união. Quando, por exemplo, vemos nas sextas-feiras à nossa volta mais irmãos que escolhem não comer carne nesse dia, mesmo que até nem pensemos muito nisso, isso demonstra-nos que não estamos sozinhosaumenta o nosso sentido de pertença à comunidade cristã.
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NOTA:
Como explica o código de direito Canónico as Conferências Episcopais de cada país podem “determinar mais pormenorizadamente a observância do jejum e da abstinência” (Cân. 1251), pelo que também pode ser útil procurar quais as indicações da Conferência Episcopal do seu país. Destaca-se em relação à abstinência às sextas-feiras (excepto na sexta-feira santa):
Brasil (CNBB): Nas sextas-feiras normais (ou seja, fora a sexta-feira santa) é possível comutar (substituir) a abstinência de carne ou de outro alimento por uma obra de caridade ou por um exercício de piedade.
Portugal (CEP): Nas sextas-feiras poderão os fiéis cumprir o preceito penitencial, quer fazendo penitência como acima ficou dito, quer escolhendo formas de penitência reconhecidas pela tradição, tais como a oração e a esmola, ou mesmo optar por outras formas, de escolha pessoal, como, por exemplo, privar-se de fumar, de algum espectáculo, etc.
Vídeo do Padre Paulo Ricardo sobre este assunto.
[1] Normas para o jejum e a abstinência, CEP, 1984
[2] Catecismo da Igreja Católica
[3] Suma Teológica, II-II, 147, 8, ad 2.
[4] Mensagem para a Quaresma 2009, Papa Bento XVI.

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