O rockeiro que se tornou padre “não por opção, mas por vocação” - Front catolico

O rockeiro que se tornou padre “não por opção, mas por vocação”





Padre Nuno Miguel durante a bênção dos barcos nas Festas de Nossa Senhora da Boa Viagem. Foto: DR
Quem olhe para o Padre Nuno Miguel, de Constância, com os seus longos cabelos pretos, poderá pensar que tenta imitar a imagem de Cristo. Nada disso. Em entrevista ao mediotejo.net, o pároco de 38 anos conta que, sendo fruto da geração de 80, sempre teve o cabelo comprido por influência do gosto musical alternativo onde pontuam nomes de bandas como os Pantera, Mettalica ou Kiss.


“Sou fruto dessa geração e os elementos das minhas bandas de referência têm todos cabelo comprido”, diz, reforçando a ideia de que não se trata de uma imagem criada por ser padre. “Muito antes de ser padre já tinha esta imagem, agora estou só mais careca… (risos)“.
Constância | Nuno Miguel, o rockeiro que se tornou padre "não por opção, mas por vocação"
O trabalho com os mais novos é uma missão que o Padre Nuno abraçou. Foto: DR
A música e os cabelos compridos sempre o acompanharam, à exceção de quando teve de cumprir o serviço militar. Foi assim que entrou no seminário e, nessa altura, já habituados ao visual “rockeiro”, foram os paroquianos que lhe pediram para não cortar o cabelo. Além disso, o Padre Nuno acredita que a sua imagem o ajuda a aproximar-se dos jovens, com quem trabalha quase diariamente.


Nuno Miguel costuma dizer: “Não sou padre por opção mas por vocação, porque se fosse eu a decidir se calhar não seria.”
Natural de Bemposta, localidade entre as cidades de Ponte de Sor e Abrantes, o Padre Nuno Miguel Lopes da Silva conta que a sua infância foi marcada por um percurso “normal”, dividido entre aulas, catequese e família, numa casa que partilhava com os pais e duas irmãs mais velhas.
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Nuno Miguel entre as suas duas irmãs mais velhas. Foto: DR
Aos 16 anos, após o crisma, abandonou a escola desiludido com uma nota de Filosofia. “Parece insignificante e ridículo mas são coisas que nos marcam: a professora disse-me que me dava uma nota e depois na pauta estava outra”. Foi o suficiente para chegar a casa e dizer aos pais que ia deixar de estudar.
Apesar de terem reagido mal à decisão, os seus pais sempre confiaram e acreditaram que o jovem Nuno Miguel iria encontrar o seu caminho.
Estávamos em 1996 e, ao atingir a maioridade, Nuno Miguel entra no mundo do trabalho, algo que fez com gosto. “Sempre gostei de trabalhar e tive diversas atividades”, lembra. Ao mesmo tempo, prosseguia as suas “aventuras fora e momentos de convívio”. Diz que foi sempre “bastante equilibrado”, e por isso os pais confiavam nele.


Não trabalhou muito tempo até chegar à conclusão de que necessitava de voltar às aulas. Durante três anos tentou regressar aos estudos mas havia sempre algum entrave. Como no ano em que foi colocado em Artes quando o que queria era Desporto… Até que, entretanto, é chamado para cumprir o serviço militar, o que o obrigou a cancelar a matrícula.
Fez a tropa no ano 2000, no Porto, onde diz que foi “muito feliz”. Nove meses depois de ingressar no serviço militar pediu destacamento para Santa Margarida, para ficar mais perto de casa. Mas, havendo a possibilidade de ficar na tropa, disse que não. “Eu queria era estudar e retomei os estudos”, explica, reconhecendo que a tropa o ajudou a perceber o que queria da vida.
Da incerteza à confirmação
“Como rapaz, namorei, tinha projetos familiares, mas depois da tropa regressei e parece que as coisas já não estavam iguais… houve aqui este interregno na vida religiosa”. É em 2001, quando regressa às aulas no secundário com um grupo de jovens da paróquia que recomeça a sua dedicação à comunidade e se dá “o clique” em que Nuno Miguel confirma a sua vocação.
Concluiu o 12° e, em setembro de 2004, ingressou no seminário em Leiria para fazer um ano de experiência. Tinha nessa altura 23 anos.
Constância | Nuno Miguel, o rockeiro que se tornou padre "não por opção, mas por vocação"
O sacerdote numa das suas missas. Foto: DR
Não planeou ser sacerdote mas recorda-se de uma tia lhe ter dito, quando era adolescente: “Tu um dia ainda vais ser padre”. O problema é que esta frase foi dita à frente a sua futura namorada, o que deixou o agora padre Nuno Miguel atrapalhado. Reconhece que “não foi uma questão fácil de gerir”, até porque “de facto não queria ser padre”.


Nuno Miguel costuma dizer: “Não sou padre por opção mas por vocação, porque se fosse eu a decidir se calhar não seria.” A questão vocacional é muito forte no caminho do Padre Nuno. “Deus queria e eu sentia-me também chamado”.
O ano propedêutico, ou ano zero, como é designado, no seminário de Leiria marcou-o muito. “Foi um ano de vida em comunidade, onde rezamos, onde fazemos algum estudo mas sem grande responsabilidade. Foi um ano que confirmou aquilo que Deus queria para mim que, de facto, era o sacerdócio”, revela.
A entrada no Seminário de Coimbra dá-se em setembro de 2005, e ali conclui a licenciatura em Filosofia e Teologia, avançando depois para o mestrado no Porto, já em 2010.
Terminado o processo de formação, o primeiro ano pastoral passou-o como seminarista na Paróquia de Castelo Branco, a pedido do Bispo da Diocese. E depois inicia aquilo a que chama de “caminhada”: a ordenação de Diácono em Castelo Banco a 6 de março de 2011 e de Padre em Portalegre, a 18 de setembro do mesmo ano.
Entre 2011 e 2013, o padre Nuno Miguel esteve ao serviço da cidade de Castelo Branco, colocado na Paróquia da Sé, ao que se seguiu a colocação ao serviço das comunidades de Rio de Moinhos, Constância e Montalvo, alargando depois, em 2016, a Santa Margarida da Coutada, mas deixando Rio de Moinhos.
No entanto, a sua atividade não se limita a estas paróquias. É capelão do Mosteiro das Irmãs Clarissas em Montalvo desde 2013, foi responsável pelo Pré-Seminário Diocesano (2010-2016) e é atualmente responsável pelo Secretariado da Juventude e Vocações.


Constância | Nuno Miguel, o rockeiro que se tornou padre "não por opção, mas por vocação"
Os cabelos compridos do Padre Nuno facilitam a aproximação aos jovens. Foto: DR
Sair de Castelo Branco, cidade que ama e onde diz ter sido acolhido “de uma forma incrível”, foi na altura “uma dor muito grande”. Mas assim tinha de ser, “era o tempo de dar outro passo”, reconhece.
Constância representava “um grande desafio” até porque, se em Castelo Branco estava acompanhado por outros padres, na vila-poema está sozinho e tem três paróquias, além do pré-seminário, e com o mosteiro sob a sua responsabilidade.


É com um brilho nos olhos que fala de Constância, a comunidade que o acolhe e onde se sente apoiado
Primeiro viveu em Rio de Moinhos e, há cerca de ano e meio, fixou residência em Constância onde se sente mais “no centro”, de onde é mais fácil deslocar-se e estar disponível.
É com um brilho nos olhos que fala de Constância, a comunidade que o acolhe e onde se sente apoiado. “É de uma harmonia muito grande, costumo dizer aos meus amigos que é o sítio ideal para constituir família”, diz, bem disposto.
Acolhedora, a vila garante às famílias segurança, tranquilidade, qualidade de vida e até a espiritualidade ao nível da natureza, que é muito forte, argumenta o Padre Nuno Miguel. “Por isso é terra de poetas. É um local inspirador”, conclui contemplando a “paisagem fabulosa” para o rio e para o campo
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